Sorria! O Big Other está de olho em você!


Fonte: G1 News


George Orwell, no livro 1984, preconiza a figura do Big Brother, líder autoritário, arquétipo do totalitarismo. Shoshana Zuboff, já nos idos de 2015, destaca a figura do Big Other, que também exerce controle e vigilância, mas de forma velada.


O Big Other, em linhas gerais, se presta ao acúmulo, ao armazenamento e à manipulação de dados fornecidos, voluntária e involuntariamente, por usuários da rede mundial de computadores. Zuboff usa como exemplo máximo o Google: um dos mecanismos de busca online mais utilizados em todo o mundo. Neste texto, objetiva-se tratar do acúmulo e da manipulação de dados pessoais por provedores virtuais.


Nas páginas escritas por Orwell, o Big Brother era a autoridade suprema da fictícia Oceânia, e espalhava pelas ruas cartazes com os dizeres “O Grande Irmão está de olho em você”. Assim, os habitantes da localidade eram avisados de que estavam sendo vigiados pelas engrenagens as quais foram batizadas pelo autor como “teletelas”. O enredo de 1984 se desenrola em um ambiente sombrio e tirânico, sendo os habitantes da Oceânia ininterruptamente submetidos a opressões físicas e psicológicas.


Shoshana Zuboff reaviva esse cenário desolador e confere a ele traços mais inquietantes. O autor se engendra pelos confins da vigilância e da manipulação concretizadas pelos mecanismos de busca da rede mundial de computadores. E, ao contrário do que ocorre no livro de Orwell, no qual cartazes alertavam a todos o fato de estarem sendo observados, em pleno século XXI o monitoramento é incessante e velado. É o que Zuboff apelidou de Big Other. Segundo o estudioso, a população mundial vive os desígnios e assombros do capitalismo de vigilância, uma das formas do capitalismo de informação.


Na atualidade, diferentes tecnologias são utilizadas cotidianamente, em especial celulares e computadores. E isto culmina na produção de muitos dados e informações, que são utilizados pelos capitalistas do século XXI como fonte para acúmulo de capitais. Tem-se, então, a Big Data, uma rede institucional onipresente que registra, modifica e mercantiliza tudo aquilo que é compartilhado por meio de transações virtuais (feitas por pessoas físicas e jurídicas); dados oriundos de redes sociais; imagens e capturas produzidas por câmeras de segurança etc.


Compete destacar que os usuários dos serviços virtuais e eletrônicos, a quem os dados produzidos, compartilhados e manipulados se referem, na grande maioria das vezes desconhecem o tratamento e o destino dados a suas informações. Percebe-se o quanto o Big Other, também chamado de Big Other Data por Zuboff, é uma efetiva forma de controle e vigilância, bem diferente do totalitarismo combatido por Hannah Arendt. O totalitarismo era quase palpável, concreto e se mostrava aos seus oprimidos sem grandes amarras. Já o Big Other se mantém com recurso ao obscurantismo, à ocultação, sem que aqueles a ele submetidos o conheçam e, assim, consigam o combater.


É possível perceber, então, a ascensão de uma nova forma de poder, uma espécie de mão invisível que controla padrões de conduta e relações sociais. Em sua obra, Zuboff fala a respeito do Google. E o autor alerta para o fato de que as operações de acúmulo e manipulação de dados, feitas pelo Google, acabam por suplantar garantias e direitos assegurados aos indivíduos por lei.


Nesse sentido, tem-se como exemplo o tratamento conferido ao direito à privacidade. Aqueles que detêm o poder, no capitalismo de vigilância, recorrem a esse direito como forma de blindar suas próprias ações. Pouco ou raramente o direito à privacidade é evocado como mecanismo de proteção dos usuários da rede mundial de computadores, em grande medida porque estes sujeitos desconhecem o tratamento conferido a seus dados. Ou mesmo têm uma vaga ideia do que é feito, mas acreditam estarem sendo beneficiados, vez que os dados coletados permitem a criação de “perfis de usuários”, com consequente seleção dos resultados de busca em pesquisas feitas no Google, por exemplo.


Este texto, em tom tão alarmante, não tem o objetivo de levar seus leitores a pararem de navegar pela rede mundial de computadores. Ou de fazerem pesquisas no Google. Ou os levarem a excluir perfis em diferentes redes sociais. Ele é apenas uma forma de alerta. Uma forma de prestar informação. Prestar informação sobre a manipulação de dados que contam histórias. Dados que apontam preferências. Um simples usuário não é capaz de frear as ações do Big Other. Mas é capaz de as entender e tentar evitá-las, sempre que possível.


Texto por: Letícia Barbosa

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Arendt, Hannah. The Human Condition. Chicago: University of Chicago Press, 1998.

ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

ZUBOFF, Shoshana. Big other: surveillance capitalism and the prospects of an information

civilization. Journal of Information Technology, v. 30, n. 1, p. 75-89, 2015.