[Coluna] Entretenimento e pesquisa com seres humanos: A Vida Imortal de Henrietta Lacks



Este texto faz parte de uma série pautada por discussões que nosso grupo de pesquisa teve nas férias de julho de 2018. Unindo o útil ao agradável, propomos uma reflexão sobre institutos importantes das pesquisas com seres humanos, tendo por pano de fundo os casos apresentados por um filme, um episódio de uma série e por um livro. Aproveitem!


Na década de 1950, uma mulher descendente de escravos, mãe de cinco filhos, descobriu um nódulo cancerígeno e iniciou o doloroso tratamento para essa doença. Seu nome era Henrietta Lacks. Ao procurar ajuda médica e fazer os exames necessários, como biópsias, submeteu-se à vontade do “John Hopkins ”. Enquanto isso, Dr. George Gey buscava células que conseguissem sobreviver em condições, muitas vezes adversas, de laboratório médico. Ao obter as células de Henrietta, ficou fascinado com sua capacidade de sobrevivência e reprodução.


A jovem senhora Lacks não teve tempo para acompanhar os estudos desenvolvidos pelo Dr. George, inclusive nem soube que suas células estavam sendo pesquisadas. Faleceu em 1951 e, nem com sua morte, seu corpo teve descanso. Ao descobrir que a doadora das células impressionantes falecera, Dr. Gey obteve novas amostras de células a partir da autópsia do corpo, conseguindo, assim seu grande desejo: reproduzir células capazes de resistir por muito tempo em ambiente fora do corpo, de modo a facilitar a experimentação em laboratório.


Daí para produção em escala industrial fora um pulo: logo estavam exportando, para inúmeras partes do Globo, os frascos contendo células de Henrietta, agora batizadas como HeLa (segundo os pesquisadores, uma forma de “proteção” à família). Ainda hoje, em 2018, essas células não apenas existem, mas continuam se reproduzindo e servindo de meio de cultura e de experimentos para médicos e indústrias produzirem novos medicamentos, vacinas e tratamentos para inúmeras doenças.

A família só soube do ocorrido décadas depois, sofrendo pela falta de reconhecimento do papel crucial que Henrietta ocupou na história científica. E esta história só chegou ao público mundial com o livro “A vida imortal de Henrietta Lacks”, escrito, em 2009, por Rebecca Skloot.


Essa realidade nos mostra o quanto é importante a ideia do consentimento informado para pesquisas com seres humanos. O consentimento informado, também chamado de consentimento livre e esclarecido, é um instituto previsto na Resolução nº 466/2012, decorrente da dignidade da pessoa humana e que tem por fim demonstrar ao participante da pesquisa todos os riscos inerentes desta, indicando também os benefícios e procedimentos. É parte essencial para qualquer pesquisa, que deve visar, sempre, o respeito aos que se prestam a contribuir para a participação nesses ensaios clínicos.


Por essas e outras histórias é que uma empatia científica deve ser instigada desde os primeiros momentos de uma pesquisa. Que essa reflexão dê uma pequena luz a uma ciência humanizada, que se digne a reconhecer a importância do ser humano em toda sua compleição (física, psíquica, cultural).

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