[Coluna] Enfermidades e o exercício da autonomia: uma análise a partir do filme Para sempre Alice


“Não pensem que estou sofrendo. Eu não estou sofrendo, estou lutando. Lutando para fazer parte, para estar conectada a quem um dia eu fui”. Essas são palavras ditas por Alice Howland, professora de Havard, especialista em linguística e acometida, precocemente, pelo mal de Alzheimer. A trajetória dessa brilhante professora, após o diagnóstico da doença, e os percalços e desafios enfrentados por ela e sua família são retratados no filme Para sempre Alice.[1]


Via de regra, acredita-se que os pacientes com mal de Alzheimer experimentam verdadeiros sofrimento e angústia. O depoimento da personagem foi engrandecedor no sentido de desmistificar essa visão: o sofrimento não é a única opção restante; pode-se, como a personagem, agarrar-se à tentativa de manter suas atividades cotidianas e, o mais importante, de preservar sua imagem e sua essência.


Importante estabelecer um paralelo entre a temática abordada no filme e um princípio muito caro à bioética: a autonomia da pessoa humana. Nos termos de Beuchamp e Childress, em texto intitulado Princípios de Ética Biomédica,[2] uma pessoa autônoma é aquela que age livremente, conforme um plano de ação por ela mesma escolhido (ou seja, autonomia pressupõe liberdade e capacidade para agir). Conforme a obra supracitada, três são as condições para o exercício da autonomia, quais sejam: capacidade (atinente à pessoa, que tanto é possuidora de direitos quanto pode se portar como agente perante a lei), consentimento (expressão da vontade da pessoa capaz) e concessão de informações (efetuada por terceiros). Os autores mencionados também defendem que o autogoverno, próprio de pessoas autônomas, pode ser limitado, temporária ou permanentemente, em razão de doenças, desinformação, coerção, ignorância sobre determinada temática etc.


Isto posto, pode-se indicar que, ao vislumbrar alguém como sujeito autônomo, extrapola-se o mero respeito às decisões tomadas pela pelo dito sujeito, suas crenças e aspirações: é necesssário muni-lo das habilidades e dos recursos necessários para enfrentar as mais diversas empreitadas. O diagnóstico de Alzheimer é um valioso exemplo. Uma pessoa acometida por essa enfermidade, progresiva e inexorável, que afeta não só a memória, mas também várias funções mentais e cognitivas, deve receber todo o suporte e apoio de que necessite. Esse apoio, levado a cabo por amigos, familiares e equipe médica e de cuidado, deve se direcionar a trabalhos de memória e raciocínio, bem como à consecução de atividades cotidianas.


As ações autônomas, para serem concretizadas, dependem da concessão de auxílio e de informações por terceiros. Logo, há que se defender a autonomia de pacientes com mal de Alzheimer. Esses sujeitos, tomados como absolutamente capazes, se receberem o devido apoio ou assistência estão aptos a seguirem seus planos de vida. Em outros termos, a manutenção da autonomia de uma pessoa acometida pelo mal de Alzeheimer depende do arcabouço informativo ao qual ela tem acesso.

[1] PARA sempre Alice. Eua: Bsm Studio, 2015. (101 min.), P&B.


[2] BEAUCHAMP, Tom; CHILDRESS, James. O respeito à autonomia. In: BEAUCHAMP, Tom; CHILDRESS, James. Princípios de Ética Biomédica. São Paulo: Loyola, 1994. p. 137-207.

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