Crianças, internet e privacidade: você sabe o que é sharenting?


Sharenting, por Jimmy Malone.

Sharenting. Talvez você nunca tenha ouvido falar nessa palavra, mas com certeza sabe o seu significado. Ela é a união de “share” (compartilhar) e “parenting” (cuidar, no sentido de exercer o poder familiar)[1], e significa a exposição e o compartilhamento excessivo de informações privadas sobre crianças, por meio das mídias digitais de seus responsáveis – aqui entende-se que além dos pais, também praticam sharenting outros adultos como parentes, amigos da família e professores[2]. Pode ser que, agora, você já tenha se lembrado de algum amigo que costuma compartilhar sobre a vida das crianças no Facebook, aquele famoso que publica stories mostrando o dia-a-dia da família, ou até mesmo você, que gosta de mostrar o quão orgulhoso é das conquistas dos seus filhos.


Existem dois tipos de sharenting: o primeiro deles é o comercial, que implica em ganhos financeiros. Pratica sharenting comercial quem divulga a família, por meio de mídias sociais como Youtube, blogs e Instagram, ao mesmo tempo em que realiza divulgação de marcas e serviços. Um grande exemplo disto é o perfil da influenciadora digital Sarah Pôncio, que além de filmar o dia-a-dia dos filhos, também realiza os famosos publiposts[3] com fotos e vídeos das crianças recebendo brinquedos, roupas e utensílios como banheira, mamadeira e pomadas para assadura[4]. O segundo tipo de sharenting é o chamado não-comercial, e se pauta no compartilhamento de dados das crianças e da vida familiar nas redes sociais sem a contrapartida econômica. Com o amplo acesso à internet, torna-se comum que os pais ou responsáveis publiquem informações sobre seus filhos, na maioria das vezes sem o consentimento deles ou sem a ciência das consequências das suas ações a longo prazo.


Um estudo realizado pelo site The Parent Zone demonstrou que são publicadas pelos pais, em média, 973 imagens das crianças antes de elas completarem cinco anos de idade, e 17% dos entrevistados admitiu que nunca havia checado as configurações de privacidade de suas contas no Facebook[5]. Esta falta de preocupação com a privacidade acaba expondo as crianças a perigos como pornografia infantil, sequestro digital e cyberbullying.


Imagens que para os pais parecem inofensivas podem ser utilizadas por pedófilos, a exemplo do vídeo de uma menina de dez anos que aparece brincando na piscina com sua amiga. A mídia chegou a 400 mil visualizações no Youtube após o algoritmo da plataforma sugeri-lo para usuários interessados em conteúdo sexual[6]. Quanto ao sequestro digital, relata-se a situação de uma mãe que descobriu que a foto que havia compartilhado do seu filho de 18 meses tinha sido adicionada ao perfil de uma estranha, e que ela estava se apresentando como mãe da criança[7]. No que diz respeito ao cyberbullying, foi descoberto um grupo no Facebook no qual adultos zombavam de fotos de crianças que haviam sido publicadas por seus pais[8], além de existirem vídeos e publicações em que os próprios pais zombam de seus filhos como forma de discipliná-los devido a algum mau comportamento[9].


Demonstra-se, portanto, que o ato de publicar sobre crianças na internet envolve perigos que muitas vezes são desconhecidos. A história e a reputação desses indivíduos podem sofrer interferência de dados compartilhados nas redes sociais dos seus pais e responsáveis, o que implica em danos pela falta de atenção à privacidade infantil. Fotos, vídeos e informações que não foram disponibilizadas por elas, mas sim por terceiros, podem transformar sua vida privada em uma exposição a qual não lhe foi conferido o poder de dizer não.


Ressalta-se, ainda, que hoje em dia as crianças também estão cada vez mais conectadas, cabendo aos pais ter cuidado aos dados que os próprios filhos compartilham nas redes sociais, nos blogs e... nos brinquedos? Sim! E este será o tema do próximo texto desta série. Você sabe o que é internet of toys?


Texto por: Thaminy Teixeira

NOTAS DE RODAPÉ


[1] EBERLIN, Fernando Büscher von Teschenhausen. Sharenting, liberdade de expressão e privacidade de crianças no ambiente digital: o papel dos provedores de aplicação no cenário jurídico brasileiro. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 7, n. 3, 2017, p. 258.


[2] PLUNKETT, Leah A. Sharenthood: why we should think before we talk about our kids online. Cambridge: The MIT Press, 2019, p. xxvii.


[3] Termo utilizado para fazer referência a publicações de influenciadores digitais patrocinadas por alguma marca.


[4] Divulgação de uma marca de pomada para assaduras de crianças realizada pela blogueira Sarah Pôncio em fotos em que aparece seu filho, João Márcio, uma criança de 1 ano. Disponível em: https://bit.ly/331xJiS. Acesso em: 16 jun. 2020.


[5] MCGUIRE, Caroline. Parents upload 973 photos of their child on social media before they turn five... and 17% admit they don’t check privacy settings. DailyMail, London, 26 mai. 2015. Disponível em: http://dailym.ai/2It2XG8. Acesso em 16 jun. 2020.


[6] FISHER, Max; TAUB, Amanda. Pesquisa de Harvard acusa algoritmo do YouTube de alimentar pedofilia. O Globo, Rio de Janeiro, 03 jun. 2019. Disponível em: https://glo.bo/2Y5erbp. Acesso em: 16 jun. 2020.


[7] O’NEILL, Jennifer. The disturbing Facebook trend of stolen kids fotos. Yahoo! News, [S.l], 03 mar. 2015. Disponível em: https://yhoo.it/2It9sZy. Acesso em: 16 jun. 2020.


[8] ANGRY mom uncovers ‘toddler bashing’ Facebook group that makes fun of ‘ugly’ babies. HuffPost, New York, 11 ago. 2013. Disponível em: https://bit.ly/38vuj9d. Acesso em 16 jun. 2020.


[9] BELKIN, Lisa. Humiliating children in public: a new parenting trend? HuffPost, New York, 18 abr. 2012. Disponível em: https://bit.ly/2wAYEpo. Acesso em: 16 jun. 2020.

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