Conversando sobre racismo com crianças e adolescentes: um desdobramento do dever de educar dos pais



A família é instrumento para a promoção da personalidade de seus membros, ou seja, deve se importar com a proteção, o desenvolvimento e a formação social de seus integrantes. Segundo o instituto da autoridade parental, os pais são os primeiros responsáveis pela proteção das crianças e adolescentes, e dentre os deveres do instituto está o dever de educar, que inclui, além do incentivo intelectual, medidas que permitam que a criança aprenda a viver em sociedade[1]. Como desdobramento deste dever, cabe aos pais promover o debate étnico-racial dentro do ambiente familiar.


A abordagem sobre raça e racismo deve ser adaptada para a idade e a maturidade das crianças. Entre 2 e 4 anos elas já começam a perceber a diferença nos tons de pele, e nessa idade pode-se explicar o que é melanina e diversidade. Já com crianças mais velhas, pode-se tratar mais explicitamente sobre temas como racismo e violência policial[2]. A conversa também deve ser diferente a depender da raça da criança, e nesta coluna damos enfoque ao tratamento do tema com crianças brancas e negras.


Desde os primeiros anos de vida, as pessoas pretas são ensinadas a odiar seus traços negróides. Por isso, um importante caminho a ser traçado por seus responsáveis é o cultivo do amor próprio, o que significa um esforço para romper com um padrão de beleza -branco- imposto socialmente. Para tanto, uma alternativa é apresentá-la referências negras de artistas, filósofos, cientistas, médicos, entre outros. Tal representatividade ressignifica as noções sobre aquilo que é belo ou tido como “lugar do negro[3]”.


Mas o racismo na infância não se limita a questão estética, e seus efeitos também podem ser observados numa manifesta necropolítica[4] que faz incontáveis vítimas, a exemplo de Àgatha Felix e João Pedro[5]. Nenhuma criança deveria ter de decorar frases como “tenho 8 anos e nada que possa feri-lo nos meus bolsos” ou temer abrir a bolsa ou mochila quando está fazendo compras (para não pensarem que está furtando algo)[6]. Mas quando as balas perdidas quase sempre encontram os mesmos corpos, é preciso adotar estratégias como essas para sobreviver.


O diálogo com crianças brancas possui algumas especificidades. Inseridas numa sociedade racista, que as privilegia enquanto padrão de inocência e doçura, ao mesmo tempo que desumaniza e exclui as crianças negras, não surpreende que as crianças brancas reproduzam e internalizem o racismo. Sendo assim, devem os pais discutir este local de privilégio racial com seus filhos, evidenciando a importância de defender outras crianças negras, incluí-las em brincadeiras, não rir de piadas e músicas racistas na escola[7], nem discriminar. Também é interessante fazer da diversidade uma realidade na vida dessas crianças, para que elas também tenham contato com pessoas não-brancas[8].


Por último, outra estratégia é munir tanto crianças brancas quanto pretas de conhecimento sobre o povo negro. Ao ter contato com grandes figuras históricas, como Nzinga Mbande Cakombe, Malcom X ou Abdias do Nascimento, é incentivado nelas o pensamento crítico, ao mesmo tempo em que lhes é fornecido argumentos e ferramentas para o reconhecimento, combate e denúncia do racismo que possa vir a sofrer ou presenciar.


Ressalta-se que a criança deve exercer papel ativo no seu processo educacional, por isso, é papel dos pais criar um espaço de diálogo em que ela se sinta confortável para questionar, demonstrar seus sentimentos acerca do assunto e retomá-lo quando quiser. Seguindo tais sugestões, as conversas sobre temáticas étnico-raciais tendem a ser tratadas com mais naturalidade, e o exercício da autoridade parental serve para fazer dessas crianças e adolescentes pessoas antirracistas que cresçam enquanto genuínos agentes de transformação social.


Texto por: Isabela Maria e Thaminy Teixeira

NOTAS DE RODAPÉ


[1] LÔBO, Paulo Luiz Netto; AZEVEDO, Álvaro Vilaça (coord.). Código civil comentado: direito de família, relações de parentesco, direito patrimonial: arts. 1.591 a 1.693. v. 16. São Paulo: Atlas, 2003, p. 209.


[2] GROSE, Jessica. These books can help you explain racism and protest to your kids. NYParenting, New York, 2 jun. 2020. Disponível em: https://nyti.ms/3cUIjLz. Acesso em: 10 jun. 2020.


[3] Com frequência, às pessoas negras são associadas posições inferiores da hierarquia social, ou profissões que embora não menos dignas, tem sua origem no período escravocrata. Para aprofundamento no tema, recomenda-se a leitura da obra de Lélia Gonzales e Carlos Hasenvalg, “Lugar do Negro”.


[4] Necropolítica é um conceito desenvolvido pelo filósofo negro, historiador, teórico político e professor universitário camaronense Achille Mbembe, que redigiu ensaio questionando os limites da soberania quando o Estado escolhe quem deve viver e quem deve morrer. No Brasil, o conceito tem sido utilizado para explicar a atuação da polícia com relação a pessoas negras e faveladas. MOREIRA, Rômulo de Andrade. A “necropolítica” e o Brasil de ontem e de hoje. Justificando, [S.l], 8 jan. 2019. Disponível em: https://bit.ly/2MRknyh. Acesso em: 12 jun. 2020.


[5] Agatha morreu no dia 20 de setembro de 2019, após ser alvejada por um tiro nas costas dentro de uma kombi, no Complexo do Alemão, a caminho de casa. Já o adolescente João Pedro, de 14 anos, foi morto por um tiro de fuzil na barriga, no dia 18 de abril de 2020. A tragédia ocorreu durante operação conjunta das Polícias Federal e Civil, enquanto João Pedro jogava videogame na companhia de amigos.


[6] O canal CUT produziu conteúdo áudio-visual que apresenta pais negros, residentes dos Estados Unidos, discutindo com os filhos o racismo institucional da polícia estadunidense, ao mesmo tempo em que os ensinam como reagir quando confrontados com esse tipo de situação. O vídeo está disponível em: https://bit.ly/3eb4crv.


[7] Sobre o tema racismo na escola e como combatê-lo, a youtuber Gabi Oliveira, do canal DePretas, convidou a pedagoga e mestre em gestão social Benilda de Brito, para tratar sobre o tema. O vídeo está disponível em: https://bit.ly/2AO1IRo. Benilda, junto com Valdecir Nascimento, também escreveu o livro Negras inconfidências - Bullying Não. Isto é Racismo!


[8] Devido à inegável relação entre raça e classe no Brasil, é corriqueiro que crianças brancas só tenham contato com outras parecidas com ela. Assim, além de explicar os motivos dessa disparidade, pode-se recorrer a maneiras de inserir essa criança em outros espaços, a partir da matrícula em atividades extracurriculares, por exemplo. A youtuber Flávia Calina compartilhou recentemente um vídeo sobre como deu início ao debate racial em seu lar, composto apenas por pessoas brancas. Em uma das cenas, ela colore a mão da filha com uma base de tom mais escuro, e afirma que não vai mais brincar com ela por causa da cor de sua pele. Depois, pergunta para a menina como ela se sentiu. Essa pode ser uma boa forma de ensinar as crianças brancas sobre empatia com a causa racial. O vídeo está disponível em: https://bit.ly/3hCcrz8.

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