[Coluna] Um holocausto no Brasil?



Século XX, um século marcado por muitos estigmas e intensificação do monstro denominado “humano”. A idealização de uma raça, apta a seguir os preceitos da ideologia dominante alemã, exterminou seis milhões de pessoas que residiam na Europa, sob massacres em massa, tratamentos e experiências desumanas.


É arrepiante imaginar como um processo de construção do ódio de uma nação pode reverter-se num genocídio. Até parece coisa de filme! Aqueles que ficamos comovidos e aterrorizados, mas logo nos esquecemos e seguimos com a nossa rotina. Mas como seria conceber a ideia de um Holocausto aqui pertinho? Até mesmo com pessoas das nossas famílias? As quais foram expostas a situações cruéis e a barbáries quase inimagináveis?


Para alguns, esse fato pode ser assustador e duvidoso, até porque as fontes são escassas e os fatos foram encobertos, mas devo afirmá-los, que sim, ocorreu um “Holocausto Brasileiro”! Vamos aos fatos, a cidade de Barbacena/MG, a partir de 1903 começou a se tornar referência nacional em psiquiatria. O Hospital Colônia era o destino de muitos considerados “desajustados” pelas suas famílias e sociedade, mas, além disso, o local acabou por se tornar um campo de extermínio para aqueles que não se adequavam aos padrões normativos da época ou não atendiam aos interesses políticos de classes dominantes.


Surpreendente, não é? Estamos falando aqui sobre pessoas que foram torturadas, espancadas, violentadas, dormiam ao relento e morriam de frio, além de comerem ratos, beberem água de esgoto e urina. É sobre como a sociedade, autoridades, políticos, funcionários, entidades religiosas e por que não as pessoas comuns, deixaram que essas barbaridades acontecessem com seres humanos que tiveram seu destino traçado ao embarcarem no “trem de doido”, abarrotados por aqueles tachados como “loucos”. Os sintomas? Timidez ou tristeza, perda da virgindade, gravidez indesejada. Moças desobedientes eram enviadas ao Colônia. Empregadas que engravidavam dos seus patrões, também. Homossexuais tinham como destino, o hospital. Pessoas encontradas sem documentos, vagando nas ruas da capital, ganhavam uma passagem no “trem de doido”, que também tinha espaço até para crianças. Ao todo, 60 mil mortos e 1.853 corpos vendidos para faculdades de medicina até o fechamento da colônia, nos anos de 1980.


Fato é que, tais relatos não são ao menos conhecidos pela população brasileira, encoberto pelas autoridades que mal deixaram vestígios para contar história. Trazer um pouquinho dessa memória marcada pela iniquidade e o desrespeito à condição humana é uma forma de consolidar a consciência social sobre a realidade a qual se assenta a história brasileira. Valorar esses personagens relegados e que tiveram sua condição humana resumida a meros parasitas de um padrão normativo da época nos leva à reflexão sobre quais são as nossas posturas frente ao descaso social e moral que vivenciamos cotidianamente.


Qual será, meu caro leitor, o estopim que nos fará acordar e assumir nossas posições de construtores da nossa própria realidade?


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Referência Bibliográfica:


ARBEX, Daniela. Holocausto Brasileiro. São Paulo: Geração Editorial, 2013.

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