[Coluna] Stranger Things da vida real: experimentos americanos ao longo da Guerra Fria

Atualizado: há 5 dias



Stranger Things gira em torno do desaparecimento do pré-adolescente Will na pequena cidade de Hawkins em 1983. 1983? Sim, época da Guerra Fria e em pleno Estados Unidos. Além do sumiço do garoto, temos como ponte para resolução do mistério a história de Eleven, fruto de uma gravidez na qual sua mãe era utilizada em experimentos sob os efeitos dos LSD, a garota desenvolveu poderes psicocinéticos.


Por ter poderes especiais que eram de interesse do governo americano, a menina foi sequestrada para acessar o ‘‘multiverso’’ e, consequentemente, se transformar em uma arma contra russos. Não sabemos sobre o sucesso do acesso ao multiverso ou das consequências que os experimentos tiveram (Demorgogons existem?), mas, historicamente, temos registros de experimentos americanos –e russos- que, assim como na série, ultrapassaram todos os limites delimitados no Código de Nuremberg sobre pesquisas benéficas, seguras e validadas pelo consentimento informado.


A história de Eleven pode ser contada por meio da própria criação da CIA, famosa agencia secreta americana que permeia o imaginário de todos que assistem aos filmes de Hollywood. É importante destacar que sempre houve espionagem, mas o mundo pós-guerra exigiu uma institucionalização de tais atividades, culminando no surgimento da instituição em 1947. Criada com o intuito de espionar e coletar dados, a proteção do status governamental da instituição deu brecha para que diversos experimentos fossem feitos sem supervisão e publicidade adequada como exigido em documentos normativos das pesquisas com seres humanos.


Nesse sentido, diversos documentos revelam que as pesquisas ao longo da Guerra Fria tiveram um foco específico: drogas e técnicas úteis ao uso e resistência da persuasão. Os testes com pessoas que não tinham conhecimento de estarem drogadas foram amplamente feitos, como no caso da mãe de Eleven e o uso do LSD que a deixou debilitada. O sentido desses experimentos era simples: supondo que inimigos comunistas já detinham tais poderes, entre 1947 e 1970, a agencia implementou testes de drogas em animais e seres humanos com objetivo de evitar extração de informações em agentes capturados, controle de indivíduos em interrogatórios, melhora da memória, defesa contra possíveis controles de agentes em ataques hostis e ofensiva em forma de técnicas não-convencionais como hipnose.


Um projeto específico é apontado como inspiração primordial da série: MKULTRA. Diversos são os boatos sobre o programa, mas algumas evidencias apontam que haveria ligação com uma operação chamada Clipe de Papel, responsável pela contratação de nazistas envolvidos com experimentos de Joseph Mengele, conhecido comandante de campos de concentração alemães, durante a Segunda Guerra Mundial. O objetivo específico era o controle mental por meio de traumas intensos, como eletrochoques, privações sensoriais e uso de drogas. A ideia é que o participante, que não tinha e não poderia ter consentimento informado adequado, passasse por tais traumas e criasse um alter ego passível de controle e manipulação por parte dos pesquisadores.


Todas essas informações foram obtidas e investigadas após anos de mistério e para obter acesso a maiores detalhes sugerimos um link para documentos oficiais divulgados pelo New York Times e o livro ‘‘Cobaias Humanas: a história secreta do sofrimento provocado em nome da ciência’’ do autor Andrew Goliszek. Além disso, acesse os textos do nosso site acerca das normativas vigentes ao longo desses experimentos e compreenda um pouco mais sobre o consentimento informado negado aos participantes reais que inspiraram Stranger Things.


E aí? Gostou das curiosidades trazidas pelo caso? Assista aos episódios de Stranger Things na Netflix e nos conte mais sobre sua nova perspectiva após conhecer a realidade dos experimentos realizados ao longo do período de Guerra Fria.


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