[Coluna] Os cruéis experimentos nazistas como alerta para a ética em pesquisa com seres humanos


As principais discussões sobre os conflitos éticos nas pesquisas científicas envolvendo seres humanos despontaram com os experimentos realizados pelos médicos do regime nazista. Os abusos cometidos contra os chamados “cobaias prisioneiros” – pessoas vulneráveis que, de modo involuntário, eram recrutadas nos campos de concentração e utilizadas nos experimentos – tentavam ser justificados em nome do avanço da ciência, mas, na realidade, eram práticas perversas e desumanas. Todos esses estudos causavam muita dor e sofrimento para os/as participantes, o que ocasionou milhares de mortes nos campos de concentração, além de traumas eternos para aqueles/as que sobreviveram.

Josef Mengele, conhecido como anjo da morte, devido às diversas fatalidades que ocorreram sob sua supervisão, foi o principal responsável pelo projeto alemão, e tinha como objetivo aumentar a taxa de natalidade da raça ariana por meio de seus experimentos. O cientista tinha uma curiosa obsessão por gêmeos idênticos, e muitas de suas pesquisas foram realizadas com tais pessoas.

Ele queria determinar quais características humanas poderiam ser modificadas. Dessa maneira, injetava anilina nos olhos dos gêmeos para tentar alterar a cor da íris, o que culminava em infecções e até em perda da visão Ele também extraia amostras sanguíneas diariamente e aplicava diversas injeções, fato retratado pelo depoimento de Eva Mozes Kor. Essas injeções resultavam em febre, inchaços no corpo e manchas vermelhas. Eva conta que depois de ela e a irmã gêmea Miriam serem libertadas de Auschwitz, Miriam começou a ter problemas renais após dar à luz aos seus filhos. Foi descoberto que seus rins tinham parado de crescer quando elas tinham 10 anos, em consequência dos experimentos no campo de concentração. Elas tentaram encontrar os arquivos do Holocausto para descobrir qual era o conteúdo das injeções, mas isso nunca foi possível. Eva conta que até a data daquele depoimento, eram desconhecidas as substâncias que ainda estavam em seu corpo.

Existiam também experimentos com clorofórmio que causavam mortes simultâneas nos gêmeos, a fim de que fossem realizadas autópsias para analisar a reação do coração de cada um deles. Além disso, órgãos de crianças ainda vivas eram retirados sem anestesia, para observar se elas sobreviveriam.

Mengele, com a finalidade de aumentar a raça “pura” mais rapidamente, forçava irmãs gêmeas a terem relações sexuais com irmãos gêmeos. Além disso, obrigava até casais de irmãos gêmeos a fazerem sexo entre si.

O estudo da ética em pesquisa com seres humanos foi diretamente influenciado pelos horrores ocorridos no Holocausto, e, para citar uma frase dita por Eva em seu depoimento, “não podemos mudar o que passou, mas podemos mudar como lidamos com isso”. Dessa maneira, com o passar dos anos, diversos documentos foram redigidos para impedir que casos como esses voltassem a acontecer, dentre eles o Código de Nuremberg, a Declaração de Helsinque e o Relatório Belmont. Sendo assim, as torturas nazistas são, e continuarão a ser, um lembrete para que se busque um caminho eficiente na ética em pesquisa. Somente a partir de normas éticas e políticas bem formuladas e atentas para a humanização dos participantes, tragédias como essas podem ser evitadas.


REFERÊNCIAS

https://mundoestranho.abril.com.br/ciencia/8-experimentos-crueis-do-nazista-josef-mengele-em-auschwitz/

DINIZ, Débora; GUILHEM, Dirce. O que é ética em pesquisa. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 2014.

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