[Coluna] “Juntos e shallow now” no sistema de faz de conta




Você definitivamente conhece alguém que não para de dizer que precisa estudar, mas que nunca começa. Ou talvez seja você mesmo o tipo de pessoa que, quando se depara com um grande número de matéria para estudar, não sabe por onde começar e acredita que o tempo disponível não será suficiente. Nesse momento, bem agora, você deve estar pensando que esse deve ser mais um daqueles textos de autoajuda, que prometem mudar sua vida com técnicas simples. No entanto, esse é só um relato de alguém que sempre viveu crises existenciais envolvendo a rotina de estudos e o aprendizado. Afinal, o que nós temos em comum?


Somos bombardeados todos os dias (mais de uma vez por dia) com uma série de informações, e nos sentimos obrigados a absorver mais e mais conteúdo em um período de tempo cada vez menor. Por isso, frequentemente nos encontramos perdidos em meio a um grande fluxo de pensamentos e, por vezes, paralisamos. Na atualidade, tudo ocorre de modo acelerado e instantâneo. Esse é um dos motivos pelos quais costuma-se dizer que o dia deveria ter mais que 24 horas para fazer tudo o que julgamos necessário.


Alguns exemplos bobos do cotidiano demonstram que a infinidade de opções acaba tornando árdua a tarefa de realizar escolhas e elencar prioridades. Quantas pessoas você conhece que dizem ficar horas tentando escolher um filme ou série na internet e acabam não assistindo nada? Esse é um fenômeno comum e diário vivenciado pela maioria das pessoas. No entanto, são poucas aquelas que compreendem que não se trata de mera indecisão, mas sim de um fenômeno psicológico denominado paralisia por análise.


A paralisia por análise, acontece quando não conseguimos chegar a nenhum lugar devido ao excesso de pensamentos. Tal fenômeno se faz cada vez mais frequente em um mundo que nos oferece uma infinidade de informações e de opções voltadas a um mesmo objetivo. As pessoas pensam tanto sobre a melhor escolha, sobre como atingir a perfeição, que simplesmente não optam por nenhuma alternativa, gastando todo o seu tempo analisando as possibilidades. Voltando aos estudos, é o que acontece quando, diante da matéria acumulada, você apenas analisa qual a melhor estratégia para começar. O problema é que jamais começa.


O sistema de ensino como um todo nos treina para sermos meros repetidores de informação, e não para produzirmos conhecimentos. O que esperar de um sistema no qual os alunos são reduzidos a nota? Nada mais do que a famigerada “decoreba”! Essa prática, comum no meio estudantil, acabou por criar uma lógica de faz de conta, na qual os alunos decoram na véspera e esquecem logo em seguida. Muitas vezes, o resultado numérico é positivo, o que faz com o faz de conta persista. A questão é que memorizar e aprender são coisas completamente diferentes.


A repetição ou memorização por força bruta é o processo mais ineficiente para aprender algo. A memorização é lenta, entediante e frustrante, além de ser um processo que adiciona informações em nossa memória de curto prazo, ou seja, não há retenção a longo prazo; aquele conteúdo logo será descartado. Para, de fato, reter o conhecimento, é preciso adquirir expertise (competência) na área. Quando se tem expertise, a maneira de vivenciar o conteúdo é diferente, pois conseguimos atribuir diferentes sentidos à informação, o que corrobora para a retenção da informação.


É claro que adquirir expertise não é tarefa simples, tendo em vista o fluxo constante de informações. A maioria das pessoas busca técnicas por meio das quais consiga absorver mais conteúdo em menos tempo, o que inevitavelmente leva à superficialidade. Em razão disso, muitas pessoas sofrem porque se acham incapazes de aprender. Na verdade, muitas vezes essas pessoas agem de forma inadequada em relação aos estudos, o que não significa que sejam elas mesmas inadequadas. Não devemos atribuir os fracassos do aprendizado como aspectos da nossa identidade. Quem se acha “burro” ou acredita que existe algo de errado com o cérebro sofre com uma crença limitadora. Em razão dessa crença, muitas vezes a pessoa sequer toma as ações necessárias para o ensino e, quando o faz, é comum que ocorra um bloqueio no momento de colocar o conhecimento em prática.


Segundo o psiquiatra e autor Augusto Cury, experiências ruins envolvendo provas são registradas de forma poderosa pelo cérebro, construindo janelas traumáticas (Killers) que encarceram o EU e possuem um potencial altamente asfixiante. Isso ocorre devido ao Registro Automático da Memória, o fenômeno RAM, que tem predileção para registrar tudo aquilo que possui alto volume emocional. Assim sendo, no exato momento da prova, pode ser que se abra uma janela tensional que bloqueia todas as outras em que o conteúdo estava absorvido. Esse bloqueio está relacionado ao medo de falhar, de não recordar, do vexame diante dos colegas e do professor. Naquele momento, o autofluxo lê e relê que o indivíduo vai fracassar, gerando sintomas psicossomáticos, como aumento da frequência cardíaca. Assim, a pessoa acaba falhando; não por incompetência, mas por acreditar não ser capaz.


No final das contas, fica claro que, para desenvolver uma estratégia melhor de aprendizado, precisamos entender como o cérebro aprende. Ao compreender as falhas nas nossas antigas estratégias, somos capazes de realizar um planejamento mais eficiente. Não podemos jamais deixar de levar em consideração é impossível absorver tudo o que nos é apresentado, por mais que o sistema queira que acreditemos nisso. O mais adequado é justamente o oposto: desacelerar o pensamento e criar prioridades. Afinal, não vale a pena traçar o caminho mais curto para tentar acompanhar a velocidade das informações. Se continuarmos fazendo de conta de aprendemos, acabaremos “juntos e shallow now”, com conhecimento raso sobre todas as coisas e, afinal, será isso que teremos em comum.


Referências:




BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

CURY, Augusto. A Pior Prisão do Mundo. Portugal: Paulinas, 2000.

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