[Coluna] Experiência do Pet(i) Noel: a beleza e a crueza da realidade


O PET(i) Noel foi um projeto entre diversos PET(is) da UFLA, cuja finalidade era arrecadar fundos para a compra de fraldas e utensílios de higiene pessoal para o Lar Augusto Silva, uma instituição de assistência a idosos. De cara, foi impressionante perceber o que uma pequena ação de cada um dos integrantes do projeto gerou: foram cerca de duas mil fraldas geriátricas doadas. Pequenas ações que, quando em conjunto, fizeram grande diferença. Um clichê surpreendente, com o perdão do paradoxo.


O primeiro contato com os idosos é um misto de sensações, de tentar saber como agir frente àquelas pessoas desconhecidas, mas pelas quais sentimos empatia imediata. A gente se deixa acreditar que, ao ler ou pesquisar sobre tema como a deficiência, ou sobre diretivas antecipadas, entende o que as pessoas hipotéticas passam em situações cotidianas hipotéticas.


Quando a dura realidade é jogada na nossa frente, e todos esses cenários deixam de ser puras hipóteses, nos vemos obrigados a abandonar a distância segura da prática que geralmente adotamos, voluntariamente ou não. A veracidade chega e traz junto dela a percepção que, só vendo de perto, poderemos ter alguma dimensão do que é a vida (nada hipotética) daquelas pessoas, longe do véu de frieza, muitas vezes imperceptível, que separa a teoria da vivência.


Uma quantidade considerável já não anda. Alguns não conseguem falar. Nada disso impede de ver a alegria nos olhos da maioria pela simples percepção das visitas. Primeiro, o pavilhão masculino: eles conversam, alguns cantam, levantam o chapéu, com dificuldade, para nos cumprimentar. Uns calados, outros, espevitados. A um deles faltam os dentes, mas não a gaita: toca o instrumento com a alegria que devia carregar mais intensamente há algumas décadas. Em seguida, as mulheres: fazem festa para nós, perguntam de onde somos, vemos suas unhas pintadas (já haviam nos avisado: elas adoram esmalte). Alguns dos homens juntam-se a nós e tem início o bingo. Joguei com Dona Martha: ficava animada e fazia questão de colocar, ela mesma, os feijões sobre os números, os quais ela mal enxergada. Começamos mal. Azar no jogo, sorte no amor, alguém disse. Dona Martha concordou. Surpreendentemente, bingo! Fomos nós que vencemos, e ela ganhou seu presente. Foi embora quando o bingo acabou, acompanhada de outra interna, e pudemos perceber como, ali dentro, uma cuidava da outra.


Ficamos acompanhados de Dona Cleusa e Dona Etelvina (tia Téo, para os íntimos); ambas portadoras de Alzheimer. A primeira mais contida: muitíssimo bem arrumada, falava pouco. É de família do Rio de Janeiro, e uma das funcionárias nos contou que foi a própria quem pediu para ficar na instituição: de jeito nenhum que queria dar todo aquele trabalho à filha. Como dói ouvir isso. É a realidade pedindo passagem. Pedindo não, ordenando, e a gente deixa entrar, e se comove. Tia Téo é uma peça: não cansava de falar sobre os homens bonitos dali, contar de sua vida, fazer piada. Hora dizia que o braço quebrado decorria de uma queda, outra afirmava que era resultado de uma briga. Parece ver a vida sob um prisma mais leve que os outros ali. Mais leve que a gente.


Precisamos estar dispostos a enfrentar mais vezes a realidade. Por mais dura que ela seja. Especialmente se encontrarmos uma forma de vê-la com leveza; lição de tia Téo. Pra finalizar, uma música que descreve a realidade de alguém que, de corpo, vive em um asilo; mas que a mente vagueia pelos anos anteriores, por vidas reais e fantasiadas...

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