[Coluna] Elizabeth Parrish, a primeira a retardar o envelhecimento humano com terapia genética



O tempo age sobre o corpo humano com uma inexorável marcha em direção ao envelhecimento. Muito antes da possibilidade de terapias genéticas para retardamento da idade, a lenda da Fonte da Juventude, cuja água é capaz de rejuvenescer a pessoa que bebê-la, fascinou o imaginário popular ao longo da história. Através dos avanços científicos, o que antes era mito se tornou, atualmente, realidade. Na coluna de hoje, apresentaremos o caso de Elizabeth Parrish, 48 anos, diretora-geral da BioViva e a primeira pessoa no mundo a reverter a sua idade.


Até 2015, nenhum teste de terapia genética para retardar envelhecimento havia sido feito em seres humanos. Pesquisas similares ocorreram em camundongos para viabilizar uma possível cura à distrofia muscular, mas Elizabeth Parrish se tornou a primeira voluntária a experimentar o tratamento. “Sou a paciente zero. Vou completar 45 em janeiro. Tenho uma doença chamada envelhecimento e não posso esperar”, ela declarou em 2015. A terapia genética financiada pela BioViva e aplicada em sua própria diretora-geral consiste em alongar os chamados telômeros, fragmentos do DNA que protegem o desgaste natural que causa o envelhecimento do corpo humano. Os detalhes do procedimento podem ser acessados no site da empresa, clicando aqui. Em março de 2016, foram divulgados resultados que apontaram um rejuvenescimento de 20 anos nas células de Parrish. Seus glóbulos brancos continuarão a ser monitorados nos próximos anos para definir se esse tratamento pode ser utilizado em outros órgãos e tecidos, mas ela e sua empresa acreditam ter dado um grande passo para o combate de patologias relacionadas à idade.


A terapia genética de Parrish, rotulada como auto-experimentação, também é cercada de controvérsias. Como os requisitos de pesquisa em seres humanos não foram preenchidos à época, o Food and Drug Administration dos Estados Unidos não autorizou as experiências da BioViva, o que fez com que Parrish viajasse para a Colômbia para completar o tratamento. Diversos especialistas contrários ao procedimento alertaram que alterar a composição genética dos seres humanos alongando telômeros era um processo perigoso, pois a função deles é restringir o número de vezes que uma célula pode se dividir (se multiplicar) e isso pode estar diretamente relacionado ao surgimento de tumores cancerígenos. Duncan Baird, professor de Câncer e Genética na Faculdade de Medicina da Universidade de Cardiff, afirmou que “brincar com um mecanismo de supressão de tumores fundamentalmente importante, herdado de anos de evolução em espécies de longa vida como a do seres humanos, não parecia uma boa ideia”. Lawrence Altman, autor de “Who Goes First? The Story of Self-Experimentation in Medicine”, analisando o caso de Elizabeth Parrish, declarou que “os pacientes número zero tiveram seu valor ao longo da história, e sempre continuarão tendo, mas não é possível permitir legalmente uma terapia tão arriscada apenas com base nos resultados desta auto-experimentação”. 


Mesmo analisado no ordenamento jurídico brasileiro, o caso permanece turvo em linhas tênues de permissão e proibição. Elizabeth Parrish, ciente dos riscos e capaz de avaliar os benefícios, exerceu sua autonomia sobre o corpo ao aplicar em si mesma a terapia genética de sua empresa? Como a ética em pesquisa com seres humanos lidaria com uma paciente zero que criou e desenvolveu o procedimento, por mais arriscado que fosse? Os instrumentos jurídicos para lidar com a questão são suficientes para proteger a autonomia do paciente sem recair em um pretenso paternalismo jurídico? 


Texto escrito por Pedro Viana, membro do LABB e bolsista PETI/Direito

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