[Coluna] E se eu partisse amanhã?


A certeza de que nossa existência é passageira e com tempo certo (ainda que imprevisível) para terminar é a única que nos acompanha ao longo de toda a vida. Talvez um dia, um mês, anos ou décadas: marcadores temporais para algo que é inevitável.  Mesmo que não acometidos por nenhuma doença crônica ou aguda, em algum momento nosso organismo simplesmente irá se cansar e cessar suas atividades funcionais. 


Por mais óbvias que essas “constatações” pareçam, a bem das verdades é que as ignoramos em boa parte da nossa vida. Como apontou Yasmin Faria em texto anterior no Blog: “morrer escancara a fragilidade de nossa existência, a impotência frente ao curso natural de nossa própria vida: não somos tão donos de nós mesmos como imaginávamos”. E anestesiados pelo cotidiano, ficamos imersos num mecanicismo diário em que a “morte” parece um assunto distante e irreal. 


Comumente, esse assunto só nos percorre diante da perda de algum ente querido e então reagimos com revolta, raiva ou profunda tristeza. É como se ninguém nunca fosse partir. Infelizmente (ou felizmente), mesmo com todos os avanços na tecnologia médica essa última frase ainda não é possível. Então só nos resta nos prepararmos para a morte, e não apenas para a dos outros, mas principalmente para a nossa. 


E se preparar para a morte não é apenas planejar as flores do funeral ou os escritos do epitáfio. Se preparar para a morte é saber que em algum momento seremos abraçados pela terra gelada ou pelo fogo crematório. E que então teremos muito tempo para sermos “pessoas” frias, mornas ou indiferentes a tudo que nos ocorre. Preparar-se para a morte é não deixar de dizer o que se sente tarde demais. É dar aquele abraço ou aquele beijo como se fossem os últimos. É se reconciliar, é amar, é respeitar, é viver como se cada momento fosse único, passageiro e terminal.


Se morrêssemos hoje, para além do luto e dos nossos familiares: que falta faríamos para as pessoas que nos rodeiam e para o mundo? Qual seria nosso legado? Seremos marcados por memórias doces e únicas ou indiferentes e efêmeras? Penso o que o melhor jeito de se preparar para o porvir é ser intenso. Intenso como amigo, como filho, como irmão. Intenso como pessoa que sabe que em algum momento terá que partir e que talvez não haja tempo para dar aquele último abraço ou para pedir desculpas de algo mal resolvido. 


Termino esse texto com um trecho escrito por Eugene O’Kelly em seu livro “Claro Como o Dia: Como a Certeza da Morte Mudou a Minha Vida”: “É uma benção. É uma maldição. É o preço que se paga por dizer “oi” a alguém. Em algum momento, também virá um adeus. Não só aos que amamos e nos amam, mas ao mundo igualmente. Eu adorava ser um líder nos negócios, mas chegou o dia em que não pude mais ser aquele homem. Antes que a luz desaparecesse na minha mente e as sombras crescessem demais para que eu continuasse enxergando, escolhi ser, no mínimo, dono do meu adeus.”   ________________________

Referências Bibliográficas: 


FARIA, Yasmin.“Uma reflexão sobre a questão ética da manutenção artificial da vida humana a qualquer custo”. Disponível neste link. Acesso em: 02/05/2017. 


O’KELLY, Eugene. “Claro como o Dia: Como a Certeza da Morte Mudou a Minha Vida”. 1º ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006

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