[Coluna] CRISPR-Cas9: a revolução da genética para o design de seres humanos



No decorrer das últimas décadas, a humanidade vem descobrindo o enorme poder conquistado pela biologia molecular para desvendar os mistérios da vida e de como ela é criada. Estas descobertas, contudo, vieram acompanhadas de intensos debates sobre a ética da pesquisa e manipulação genética. Em 2015, o mundo parou para discutir as questões éticas envolvendo o uso da CRISPR-Cas9, uma ferramenta que tornou possível qualquer estudante de biologia “desenhar” seres humanos com características genéticas determinadas por sua vontade – e é este debate que traremos para a coluna desta semana.


O que é a CRISPR-Cas9? Também conhecida como “tesoura genética”, esta técnica, criada em 2012, consiste no corte de genes a nível molecular, retirando-os das células e adicionando genes de outro organismo. Outras técnicas já vinham realizando esta função há anos, porém nenhuma com tamanha rapidez e eficiência como a CRISPR-Cas9. Ela foi apresentada ao mercado como uma técnica mais barata, mais precisa, mais rápida e até mais simples de ser empregada – em princípio, qualquer pesquisador (ou até um estudante de biologia com conhecimentos em genética e acesso aos reagentes e equipamentos necessários) pode realizar experimentos com a modificação do código genético de um organismo. Até 2015, a CRISPR conseguiu criar macacos com mutações programadas e evitar a infecção do HIV em células humanas. Para a comunidade científica, ela representou uma verdadeira revolução nas pesquisas em biotecnologia. O problema, despertado após abril de 2015, quando cientistas chineses publicaram um artigo sobre a manipulação do genoma de 86 embriões humanos utilizando a CRISPR-Cas9, é o uso desta técnica, tão simples e acessível, em seres humanos. Estaríamos entrando numa era de seres humanos desenhados por encomenda, com características genéticas programadas e selecionadas?


Os principais temores são que se utilizem da técnica para fins instrumentais ou eugenistas – ou mesmo que, sem estes fins, ela acabe se tornando arriscada demais para ser considerada viável. Mesmo aqueles geneticistas com boas intenções podem, equivocadamente, editar mudanças no DNA que gerariam mutações perigosas em seres humanos.  Cientistas com intenções menos nobres poderiam tentar criar uma raça de super-humanos ou simplesmente venderem no supermercado bebês cujas cores dos olhos são “à gosto do cliente”. De fato, não podemos nos esquecer que a CRISPR-Cas9 pode um dia ser a cura para diversas doenças genéticas ou se tornar uma grande força na ecologia e conservação de espécies, mas obviamente a manipulação genética é um assunto delicado do ponto de vista ético e algo muito distante de se tornar comum no nosso cotidiano. A CRISPR-Cas9 ganhou bastante atenção e destaque nos últimos dois anos, mas é preciso levar o debate para além dos centros de conferências de biologia molecular e engenharia genética. Por questões democráticas, cientistas não podem ser os únicos a ter conhecimento e opinar sobre tais possibilidades. Essas tecnologias têm o potencial de não apenas nos mudar, mas também de transformar toda a concepção que temos sobre o que é humanidade.


Obs.: O tema é tão relevante que se tornou até matéria do Fantástico, programa jornalístico da Rede Globo. Confira: 



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