[Coluna] Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças:avanços da biotecnologia e o respeito à autonomia


O filme “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” narra a história de Joel e Clementine, (vividos por Jim Carrey e Kate Winslet), um casal que durante anos tentou com que o relacionamento desse certo. Desiludida com o fracasso, a jovem decide esquecê-lo e Joel se depara com uma situação inusitada ao tentar se redimir, Clementine age como se não o conhecesse, uma vez que por meio de um procedimento experimental havia apagado todas as suas lembranças que tinham relação com Joel.


Desamparado, o jovem decide fazer o mesmo, mas durante o procedimento encontra uma lembrança que o faz perceber porque gostava de Clementine e o quão precioso foi aquele momento, algo que merecia ser guardado. A partir de então, o filme toma outro rumo: Joel e Clementine se unem dentro da mente de Joel para preservarem as lembranças de seu amor, numa luta frenética a fim de evitar que o esquecimento de fato ocorra.


Atualmente, vivemos um momento privilegiado da história, o advento da biotecnologia, permitindo um aprimoramento do modo de vida humano. Todavia, os paradigmas fornecidos pela modernidade para lidar com as inovações são insuficientes, uma vez que a ciência e a ética devem estar em equilíbrio, de modo que atinjam o fim esperado e não, somente, o progresso tecnológico, que quando desarmônicos podem prejudicar o futuro da humanidade.


Neste viés, a trama nos leva a uma reflexão sobre os avanços da biotecnologia e a sua influência no comportamento humano, um dilema debatido e analisado pelos estudos bioéticos, sendo o respeito à autonomia um dos princípios fundamentais para a aplicação dessa nova ciência. Dworkin, em seu livro Domínio da Vida, ao analisar o termo “autonomia” compreende que esta “exige que permitamos que uma pessoa detenha o controle de sua própria vida, mesmo quando comportar-se de um modo que, para ela própria, não estaria de modo algum de acordo com seus interesses”, circunstância que o filósofo chama de “fraqueza de vontade”.


O respeito à autonomia reflete a garantia de uma história, por meio do apreço em agir intencionalmente com base em valores, crenças e conceitos construídos ao longo da vida aliada com uma efetiva assimilação de informações. O desrespeito a isso nega ao ser a condição de humano dotado de direitos e de vontade. Todavia, o procedimento adotado no filme comprometeu até mesmo a dignidade dos pacientes ao infringir patamares do desenvolvimento humano, como as lembranças e as experiências, as quais fazem com que os indivíduos possam se moldar e se auto reconhecerem.


Ao compreender a importância de suas lembranças, Joel já não possuía o controle do seu corpo e das suas atitudes. O que nos permite a compreensão da importância de encarar muitos dos dilemas implicados pelas práticas das ciências e da tecnologia, em particular, pelas pesquisas que envolvem seres humanos. Qualquer intervenção sobre a pessoa humana, suas características fundamentais, sua vida, integridade física e saúde mental deve subordinar-se a preceitos éticos, de modo a se manter dentro dos princípios morais impostos pelo respeito à pessoa humana, à sua vida e à sua dignidade.


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Referência Bibliográfica:


DWORKIN, Ronald. Domínio da vida: aborto, eutanásia e liberdades individuais. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

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