A menor máscara do mundo: o que o palhaço tem a dizer sobre recusa de tratamento médico?



“Logo no segundo quarto, a gente deu uma entradinha, o moleque fechou a cara, não olhou pra gente, e a mãe fez ‘não, não, obrigada!’ Ok! A gente entendeu o recado. No hospital, o palhaço pode ser recusado, é a única figura para a qual a criança pode dizer não.” [1]


Em uma primeira advertência, devo esclarecer que esse texto não falará sobre as crianças. Eu teria muito pouco espaço para falar sobre um tema cuja discussão seria insuficiente e superficialmente trabalhada.


Quando Márcio Ballas – ator, palhaço, improvisador, etc. – diz a frase citada, ele dá uma lição valiosa a todos aqueles que são, ou pretendem ser, palhaços de hospital. Apesar de a palhaçaria de hospital ser um elemento que permite a melhoria do quadro clínico de pacientes, a recusa à visita do “besteirologista” deve ser, inquestionavelmente, aceita.

Por isso, o trabalho do palhaço de hospital começa de fora dos quartos, mais especificamente, na porta. É pedindo permissão e aguardando a expressa anuência do paciente, que se inicia o trabalho, e só depois, é que as brincadeiras – e o tratamento – podem começar.


Para nós, é fácil dizer assim. Apesar de o palhaço ser uma figura de importância fundamental no hospital (melhora a autoestima do paciente e, muitas vezes, a reação ao tratamento se dá de forma mais efetiva), a presença ou ausência de um palhaço não levará um paciente à morte, mas a falta de um tratamento clínico, possivelmente. No entanto, é preciso expandir um pouco essa lógica.


Como diz o outro grande mestre palhaço Márcio Libar, “não ama, verdadeiramente, quem não pensa na morte” [2]. A morte é, realmente, um tabu social, e, quanto mais se aproxima, mais tentamos, veementemente, contorná-la. E é, justamente por isso, que, nessas horas, em especial quando amamos verdadeiramente, acabamos por cometer o erro de interferir no que é um assunto pessoal e delicado: a recusa do tratamento médico.


Fundamentalmente, a recusa ao tratamento médico é um dos direitos da personalidade, que diz respeito à possibilidade de o paciente recusar um tratamento, mesmo que o leve a óbito. A título de exemplo mais comumente discutido, tem-se a recusa da transfusão de sangue por Testemunhas de Jeová. No entanto, apesar de já reconhecido como um direito, o próprio Conselho Federal de Medicina, e o Código de Ética Médica são resistentes a essa posição, (vide, por exemplo, a Resolução 2232, de 2019 do CFM).


Para aqueles que seguem os ditames dessa resolução, a Medicina é uma ciência que trata do direito à vida e à saúde, os colocando acima de qualquer outro valor ou preferência do paciente. Entretanto, este é um argumento muito problemático, uma vez que é certo que o paciente se encontra em uma situação de vulnerabilidade, mas, nem por isso, deixa suas convicções de lado ou as perde. Priorizar os valores e a consciência do médico em vez daquelas do próprio paciente, é negar a este o seu direito mais íntimo de autonomia existencial e de livre desenvolvimento da sua personalidade.


Então, pode-se dizer que o trabalho dos médicos também deve começar do lado de fora dos quartos. Na porta, pedindo anuência. Igual ao nosso grande mestre, o bobo. Afinal de contas, “o palhaço, o bobo, vem ensinar a conhecer e confiar no presente, [...], nos trazendo para o presente.”[3] E se esse presente for abraçar o fim com respeito à dignidade, que assim seja.

Texto por: Marina Rufato


NOTAS DE RODAPÉ


[1] BALLAS, Márcio. O olhar do sim at TEDxFortaleza. Youtube, 21 de setembro de 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=hjhD0lhCGHk&t=114s


[2] LIBAR, Márcio. Onde está a graça: Márcio Libar at TDxVilaMadaSalon, Youtube, 10 set. 2013. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Rtx3-dNbDyI.


[3] NOGUEIRA, Wellington. O mundo precisa de mais palhaços at TEDxIndaiatuba, Youtube, 28 de novembro de 2015. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=R3F98tFl-zk&t=6s



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


BALLAS, Márcio. O olhar do sim at TEDxFortaleza. Youtube, 21 de setembro de 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=hjhD0lhCGHk&t=114s


LIBAR, Márcio. Onde está a graça: Márcio Libar at TDxVilaMadaSalon, Youtube, 10 set. 2013. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Rtx3-dNbDyI.

NOGUEIRA, Wellington. O mundo precisa de mais palhaços at TEDxIndaiatuba, Youtube, 28 de novembro de 2015. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=R3F98tFl-zk&t=6s

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